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Autor: Rafael Ramires Santos Gasques

O Último Caminho Selvagem: Elefantes Asiáticos e o Lixo do Progresso

O Último Caminho Selvagem: Elefantes Asiáticos e o Lixo do Progresso

Mundo
Uma imagem que deveria gelar o sangue: um elefante asiático, Elephas maximus, o maior mamífero terrestre da Ásia e símbolo ancestral de força, sabedoria e espiritualidade, caminha lentamente, mas não pela floresta que moldou sua espécie por milhões de anos. Ele avança sozinho por uma montanha surreal de lixo em Ampara, no Sri Lanka, onde restos de plásticos, metais, produtos químicos e alimentos estragados formam seu novo habitat. Sua tromba, que evoluiu para arrancar folhas e galhos tenros, agora busca entre resíduos que matam silenciosamente: sacos plásticos, baterias e restos industriais que entopem seu sistema digestivo e intoxicam seu corpo. Esta não é uma cena de vida selvagem; é um retrato devastador do Antropoceno, da majestade reduzida à sobrevivência em um mundo moldado pelo desc...
O Paradoxo da Escolha: Mais opções, menos felicidade?

O Paradoxo da Escolha: Mais opções, menos felicidade?

Reflexão
Vivemos em uma era em que tudo está ao alcance de um clique: mil marcas de tênis, infinitas séries na Netflix, dezenas de apps de meditação, cursos online para cada habilidade imaginável. A liberdade de escolha é celebrada como um símbolo de progresso. Mas será que ter tantas opções realmente nos torna mais felizes? Pesquisas em psicologia sugerem que o excesso de opções pode gerar exatamente o contrário: ansiedade, frustração e indecisão. Barry Schwartz, autor do livro O Paradoxo da Escolha, argumenta que, à medida que multiplicamos as alternativas, o peso da decisão cresce. Quanto mais podemos escolher, mais questionamos se fizemos a escolha certa. E quanto mais nos preocupamos com a “melhor opção”, menos aproveitamos o que temos. Pense na última vez que você foi a um supermercado ou a...
Conflitos sociais e a arte como mediação

Conflitos sociais e a arte como mediação

Arte
A arte sempre chegou atrasada aos fatos — e, paradoxalmente, antes de tudo. Ela não compete com a notícia, nem com a urgência do acontecimento. Sua função é outra: decantar o conflito, transformar ruído em forma, caos em linguagem. Em tempos de tensões sociais explícitas, a arte reaparece como espelho trágico de uma sociedade que já não consegue se explicar apenas pelo discurso racional. Feita por humanos, a arte carrega inevitavelmente inclinações, escolhas e silêncios. Não existe obra neutra, assim como não existe olhar desinteressado. Ainda assim, reduzir toda produção artística a um gesto político direto empobrece sua potência. Fala-se muito sobre política — e com razão —, mas nem tudo é política no sentido estrito, ao mesmo tempo em que a política se infiltra no cotidiano, nas relaçõ...
Arte na Linha de Fogo: o crime que olha para a cultura como mercadoria

Arte na Linha de Fogo: o crime que olha para a cultura como mercadoria

Arte, Segurança Pública
O domingo, 7 de dezembro de 2025, marcou um golpe pesado contra a cultura brasileira. No início da manhã, dois homens armados invadiram a Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, renderam os vigilantes e fugiram levando treze gravuras de altíssimo valor histórico e artístico: oito assinadas por Henri Matisse e cinco de Candido Portinari. As obras compunham a exposição “Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade” e estavam acessíveis ao público até então. Segundo as autoridades, a dupla agiu de forma calculada: intimidou os seguranças exibindo armas, recolheu rapidamente as peças e escapou em direção ao metrô Anhangabaú. A Prefeitura informou que o prédio possui vigilância, câmeras e seguro para o acervo, enquanto a Polícia Civil já está com peritos e equi...
Alameda 64: Gesto estético e político de resistência.

Alameda 64: Gesto estético e político de resistência.

Arte
Em tempos em que a história parece constantemente disputada, “Alameda 64” surge como um gesto estético e político de resistência. O curta-metragem dirigido por Guto Togniazzolo, produzido pela Gutoto Produções Digitais em parceria com a Cooperativa Paulista de Teatro e realizado graças à Lei Paulo Gustavo, convida o público a revisitar um dos períodos mais sombrios do país: a ditadura militar brasileira para iluminar sobretudo as violências dirigidas contra corpos femininos. Com apenas 17 minutos, o filme constrói um delicado híbrido entre ficção e documento. A história acompanha Eugênio (Luiz Felipe Choco), um jovem que decide visitar um endereço: uma casa silenciosa, quase suspensa no tempo, evocando as muitas “casas de tortura” que existiram pelo Brasil, como a chamada Casa Quero...
Poéticas da Imagem: A Estética como Linguagem do Indizível

Poéticas da Imagem: A Estética como Linguagem do Indizível

Arte, Cultura
Em um mundo saturado por narrativas aceleradas, a estética das imagens emerge como um espaço de silêncio ativo, um campo em que o subjetivo encontra formas de existir para além da palavra. A imagem, quando tratada como poética, não é apenas representação: é acontecimento sensível, vibração, gesto. Ela comunica aquilo que não cabe no discurso, aquilo que transborda pelas frestas do indizível. No cinema, na fotografia, nas artes visuais e nos experimentos audiovisuais, a imagem não se limita ao registro do real, mas o reinventa. Cada composição revela uma camada invisível de memória, afetos e disputas simbólicas. Ao mesmo tempo em que captura o instante, ela convoca uma leitura que não se esgota. Sua força está justamente na capacidade de instaurar uma experiência, o espectador não lê a ima...
Ficção Televisiva Reescreve a Memória da Era da Regência Britânica

Ficção Televisiva Reescreve a Memória da Era da Regência Britânica

Arte, Cultura, História
Um novo estudo meu investiga como séries de sucesso — especialmente Bridgerton — vêm remodelando a memória cultural da Era da Regência Britânica (1811–1820). Na pesquisa, analiso de que forma a ficção televisiva constrói uma versão estetizada e altamente idealizada do período, distanciando-se da realidade social e material registrada pela historiografia. Chamo esse movimento de “Regência Fabricada”, expressão que utilizo para explicar como a cultura pop contemporânea suaviza tensões históricas, apaga desigualdades e reformula códigos sociais para se adequar ao consumo do streaming global. (Charlotte em 1762: teoria diz que a rainha tinha sangue africano - Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images) Reescrita do passado pela estética Ao observar produções como Bridgerton, percebo q...