
O domingo, 7 de dezembro de 2025, marcou um golpe pesado contra a cultura brasileira. No início da manhã, dois homens armados invadiram a Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, renderam os vigilantes e fugiram levando treze gravuras de altíssimo valor histórico e artístico: oito assinadas por Henri Matisse e cinco de Candido Portinari. As obras compunham a exposição “Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade” e estavam acessíveis ao público até então.
Segundo as autoridades, a dupla agiu de forma calculada: intimidou os seguranças exibindo armas, recolheu rapidamente as peças e escapou em direção ao metrô Anhangabaú. A Prefeitura informou que o prédio possui vigilância, câmeras e seguro para o acervo, enquanto a Polícia Civil já está com peritos e equipes de investigação em campo.
O impacto da perda é profundo. Cada uma das gravuras levadas representa não apenas alto valor monetário — estimado em cifras milionárias no mercado internacional — mas também um elo essencial da história da arte. Matisse é uma das pedras angulares do modernismo europeu, cuja obra influenciou gerações de artistas ao reinventar cor, forma e liberdade estética. Portinari, por sua vez, é um ícone da brasilidade: suas composições, especialmente as da série Menino de Engenho, traduzem em imagem a memória social do país, as infâncias invisíveis, a vida popular e suas contradições.
Episódios como esse não são inéditos. Em outubro de 2025, o mundo se surpreendeu com o roubo de joias históricas da coroa francesa, retiradas de vitrines da Galeria Apollo, no Museu do Louvre. O ataque expôs a vulnerabilidade até mesmo de instituições consideradas impenetráveis.
O Brasil também convive com um histórico de violações: a própria Biblioteca Mário de Andrade e o MASP já sofreram furtos e invasões anteriormente. A repetição desses ataques mostra que o cuidado com o patrimônio cultural ainda não está à altura da importância que ele possui.
A expectativa agora se volta para a ação das autoridades, com apoio de sistemas de vigilância urbana como o Smart Sampa, na tentativa de localizar os criminosos e recuperar o que foi levado. Mais do que recuperar objetos, trata-se de restaurar parte da nossa memória.
Não se pode aceitar que a arte — espelho da sociedade e herança de gerações — seja reduzida a item negociável em esquemas criminosos. Proteger as obras é proteger a história e o futuro do país.
Coluna Cultural – Rafael Ramires Santos Gasques
