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MEMÓRIAS QUE NÃO QUERO PERDER

Se algum dia for acometido de perda de memória, por qualquer motivo, não quero perder minhas memórias de criança, gostaria de lembrar desse tempo em que brincava no quintal da minha casa em Volta Redonda e no quintal da casa da minha avó em Juiz de Fora, foram tempos maravilhosos que nunca quero esquecer, uma fase em que tudo era alegria, energia e a vida era boa mesmo.

Com o passar do tempo muitas coisas somem de nossa mente, principalmente aquelas que não tiveram muita importância, isso eu nem ligo, podem sumir até mais memórias que não faço questão nenhuma delas, podem sumir até memórias das paqueras da adolescência, das decepções amorosas da vida adulta, tive poucas, mas as tive e também memórias de alguns trabalhos que tive na vida que só me aborreceram. Isso tudo não me faria nenhuma diferença se de uma hora para outra se apagasse da minha memória.

O que seria imperdoável para mim é que se apagassem as memórias de criança, do meu quintal em Volta Redonda, dos treinamentos da SWAT que fazíamos, eu e meus colegas pelas árvores que tinham lá, era um sobe e desce danado nelas, sob as ordens de dois amigos mais velhos um pouco, o Vinícius e o Júlio, irmãos e vizinhos lá de casa, que assumiam o posto de tenente e coronel, não necessariamente nessa ordem, não me lembro quem era quem na brincadeira, enquanto o resto da molecada, eu inclusive, eram os bravos soldados que iriam resolver os problemas de segurança da cidade e prender os facínoras.

Nesse mesmo tempo, enquanto não estávamos sendo adestrados nos rígidos padrões militares que regiam a nossa SWAT imaginária, sobrava um bom tempo para brincar de carrinho, fazendo ruas pelo quintal, construindo pontes e casas com gravetos e folhas das árvores, naquele momento o pelotão tático policial era posto de lado e a molecada se tornava engenheiros, arquitetos, pedreiros, exercíamos todas as funções nas construções, que permaneciam de pé por longo período, éramos bons em cálculos e projetos também, a maioria dessas construções só era destruída quando minha mãe varria o quintal ou o cachorro derrubava, então na próxima brincadeira tudo devia ser construído novamente. Bons tempos aqueles em que a maior preocupação era se teríamos ou não treinamento da SWAT e se nossas construções ainda estariam de pé no dia seguinte.

Outra coisa legal de fazer era soltar pipa ou chupão, que era simplesmente uma folha de caderno dobrada em forma de quadrado com uma linha passando de lado a lado, como cabresto, que na falta de uma boa pipa era garantia de diversão no ar. Felicidade de criança, que com quase nada consegue se divertir, uma pipa ou um chupão com a linha enrolada numa latinha e estava tudo certo. Tinha que ter cuidado com as pipas do morrão, um morro do lado de lá da Avenida 207, onde os caras tinham as melhores pipas e cortavam no mole as pipas da galera do Eucaliptal.

Quando mudamos para Juiz de Fora, as brincadeiras eram diferentes, ao invés de pipa soltava papagaio, que eu achava, e ainda acho, sem graça, com a pipa era possível brincar mais, ela nos permitia fazer acrobacias, o papagaio não, era meio paradão lá no céu, troquei a boa e velha lata de linha pala máquina, que apesar de não deixar a linha embolar, era também sem graça, nunca me adaptei a ela, eu preferia a lata para enrolar minha linha, era mais fácil de manusear e mais leve também.

Em Juiz de Fora era legal porque nas férias meu tio e meus primos vinham de Brasília e virava uma bagunça danada, além dos primos juntava a molecada da rua para brincar de pique esconde, onde comecei a beijar as meninas, saíamos na Caravan do meu tio, nesse caso só os primos, nove ao todo dentro do carro, para mexer com os outros na rua, e zoar um pouco, era divertido e meu tio acho que não ligava muito não, ele era gente boa, às vezes bravo, mas gente fina, herdei dele o nome e a paixão por escrever, ele era um ótimo cronista, o que ainda estou escalando, e tinha sido radialista na BR-B3, acho que era isso mesmo, quando jovem.

Essas memórias eu não queria perder, me fazem bem e acredito que a todo mundo que está lendo esse texto também faz. Cada qual com as suas lembranças, lendo o texto e recordando dos seus tempos de criança, quem aqui não revirou um pouco os olhos para se lembrar? Por isso não quero que me levem essas memórias infantis, se puder eu quero que permaneçam até o meu último suspiro de vida, nesse caso talvez eu morra feliz e não queira voltar para puxar o pé de ninguém.

As memórias de criança são as mais puras que temos em toda nossa vida, depois vamos nos sujando com diversas outras coisas que vamos aprendendo, no passo dois perdemos nossa inocência, os sonhos já não são puros como antes, desejamos outras coisas, conhecemos as impurezas, algumas pessoas se tornam muito más, se perdem pela vida e perdem a vida porque se perdem. A vida estraga as pessoas ou são elas que estragam suas vidas? Qual é a causa de quê? Não sabemos, o que podemos saber é o que vemos, amigos que eram os nossos melhores amigos, de repente nem nos procuram mais, buscam outras companhias, ficam bobos e metidos, se esquecem das traquinagens da infância e se tornam adultos vazios e distantes do que foram.

A vida adulta é dolorida, temos responsabilidades, tantas que dá vontade de acordar um dia, jogar tudo para o alto, pegar um carrinho de plástico e sair empurrando pela casa, sonhando com altas aventuras e salvando o mundo de perigosos bandidos. Mas a vida já é uma grande aventura, e nela assumimos vários papéis, somos mocinhos, bandidos, bons e maus, o chefe e o empregado, o alto e o baixo, tudo em pouco tempo, basta que nos coloquemos em cada uma dessas posições.

A aventura da vida só acaba quando esta chega ao seu fim, nesse derradeiro momento eu não quero me arrepender de nada, quero estar nesse dia como uma criança, leve e ainda cheio de sonhos, curtindo as lembranças dos meus bons tempos infantis. Posso, nesse dia, ter me esquecido de tudo mais, mas não desejo esquecer de que fui uma criança e quero me encontrar com ela aqui dentro, para pedir que me salve nesse momento e me faça ainda rir de minha dificuldade de aceitar o fim.

Peço que a vida, que ao me tirar todas as memórias, deixe intacta a criança que eu ainda sou até hoje e jamais deixei de ser, no que depender de mim ela permanecerá, pois é ela que me dá a sustentação para me manter vivo nessa selva perigosa que é a vida adulta.

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